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Amanhã, o governo de Donald Trump anunciará a possível aplicação de um novo tarifaço sobre produtos brasileiros, que poderá provocar impactos significativos na economia catarinense. A estimativa da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC) é de que, caso as sobretaxas permaneçam por um período entre um ano e um ano e meio, o Estado deixe de gerar aproximadamente 18 mil empregos.

O economista-chefe da FIESC, Pablo Bittencourt, explica que o impacto deverá ser semelhante ao registrado durante o primeiro tarifaço. Na ocasião, em aproximadamente sete meses, Santa Catarina deixou de gerar cerca de 7,6 mil postos de trabalho. Bittencourt ressaltou que a projeção não representa, necessariamente, demissões. Segundo ele, a economia é influenciada por outros fatores, como a queda dos juros, o aumento da renda das famílias e o comportamento do mercado interno. “Como fruto exclusivamente do tarifaço, estimamos que a economia deixe de gerar mais de 18 mil empregos. Se iria gerar 50 mil postos de trabalho, poderá gerar 32 mil. Conseguimos isolar o efeito provocado pelas tarifas”, explicou.

Além dos reflexos no mercado de trabalho, a FIESC estima uma redução próxima de R$ 1,5 bilhão no crescimento da economia catarinense em aproximadamente um ano e meio. “O PIB do Estado tende a crescer menos do que poderia. Esses são os elementos que mais preocupam em relação aos efeitos de um segundo tarifaço”, afirmou.

A FIESC também calculou a diferença entre as tarifas que poderão atingir os produtos catarinenses e aquelas enfrentadas pelos principais concorrentes internacionais no mercado norte-americano. Segundo Bittencourt, Santa Catarina poderá enfrentar uma desvantagem competitiva média de aproximadamente 25%. “A diferença ficou em torno de 25 pontos percentuais. Isso significa que saímos perdendo nessa proporção, de forma semelhante ao que ocorreu durante o primeiro tarifaço”, explicou. A análise considera cerca de 1,4 mil produtos exportados pelo Estado, com impactos diferentes para cada segmento.

China não substitui

A missão empresarial que a FIESC realizará à China, em outubro, também levantou o debate sobre a possibilidade de o mercado asiático absorver parte dos produtos eventualmente prejudicados pelas tarifas norte-americanas. Apesar de a China ser o segundo maior parceiro comercial de Santa Catarina, Bittencourt explicou que as pautas de exportação são diferentes. “A tendência é fazermos uma ligação entre uma coisa e outra, mas elas não têm uma relação tão forte. A China é um grande motor do crescimento mundial e um centro de oportunidades tecnológicas, produtivas e comerciais, mas a nossa relação com os Estados Unidos é diferente”, afirmou.

As exportações catarinenses para a China são concentradas principalmente em produtos da agroindústria, com destaque para a carne de aves. Já os Estados Unidos compram produtos ligados à construção civil, como portas, obras de marcenaria, madeira de coníferas, madeira compensada e móveis. “Não dá para substituir rapidamente os Estados Unidos pela China, porque o tipo de exportação é outro. Muitos produtos são desenvolvidos especificamente para o mercado americano”, destacou.

O economista explicou que produtos como carnes possuem maior facilidade para encontrar novos mercados. A situação é diferente para as indústrias de madeira e móveis, que mantêm relações comerciais de longa duração com importadores norte-americanos.

Redirecionamento é limitado

Durante o primeiro tarifaço, algumas empresas buscaram ampliar as exportações de móveis para a Europa. O movimento, porém, foi considerado limitado. “Houve alguma capacidade de redirecionamento, principalmente no setor de móveis, mas foi algo marginal. A maior parte dos produtores possui clientes de longa data nos Estados Unidos e não é fácil mudar de mercado de um momento para outro”, afirmou Pablo Bittencourt.

Segundo o economista, durante o período de vigência das primeiras tarifas, as exportações catarinenses aos Estados Unidos chegaram a cair quase 40%. Parte dos prejuízos foi dividida entre as empresas catarinenses e os importadores norte-americanos. Após a retirada das tarifas, as vendas voltaram a crescer rapidamente.

Empresas catarinenses também tentam antecipar exportações diante da possibilidade de aplicação das novas tarifas. A estratégia, porém, enfrenta limitações. O ciclo entre o pedido, a produção e a entrega nos Estados Unidos leva aproximadamente 40 dias. Além disso, a capacidade das indústrias permitiria um aumento temporário de cerca de 20% na produção. “Existe antecipação das exportações, mas há um limite de capacidade produtiva. Esse volume ajuda, mas não garante o fluxo financeiro das empresas até o final do ano”, alertou.

Pressão dos importadores

Pablo Bittencourt afirma que os argumentos técnicos apresentados pelo Brasil são consistentes para tentar impedir um novo tarifaço. Entre os pontos destacados estão o déficit brasileiro na relação comercial com os Estados Unidos e o possível aumento dos custos da construção civil norte-americana. O economista também contestou alegações relacionadas a supostos problemas ambientais e trabalhistas na indústria catarinense. “A indústria da madeira possui certificações e atende às exigências regulatórias. Esses argumentos parecem servir apenas para dar um verniz às medidas”, criticou. Apesar disso, ele avalia que a pressão dos próprios importadores norte-americanos poderá ter maior peso na decisão. “A capacidade de um cliente nos Estados Unidos pressionar deputados e representantes da sua região pode ter mais força do que um argumento geral relacionado à inflação”, avaliou.

Regiões mais atingidas

As regiões que poderão sofrer os maiores impactos são a Serra e o Planalto Norte, devido à forte concentração das indústrias de madeira e móveis. “São exatamente as regiões economicamente mais deprimidas do Estado e deverão ser as mais afetadas”, alerta Bittencourt. Vale lembrar que durante o primeiro tarifaço, os governos federal e estadual adotaram medidas para apoiar as empresas exportadoras. Entre as ações estiveram linhas de financiamento, o Reintegra, fundos garantidores, devolução de créditos de exportação, postergação do pagamento do ICMS e recursos disponibilizados pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). Bittencourt afirma que a FIESC manteve uma atuação próxima aos governos e espera que novas medidas sejam adotadas caso as tarifas sejam confirmadas. “O governo estadual atuou de maneira ampla e responsável. Acreditamos que essa atuação continuará caso o novo tarifaço seja efetivado”, concluiu.

Via SC em Pauta