Porto Itapoa Foto Jonata Rocha SecomGOVSC

Levantamento analisa pilares como segurança pública, infraestrutura, solidez fiscal e sustentabilidade social

Santa Catarina chegou pela primeira vez ao topo do Ranking de Competitividade dos Estados, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), após 14 anos de liderança consecutiva de São Paulo. O desempenho é sustentado por melhorias contínuas em segurança pública, capital humano e potencial de mercado.

São Paulo agora ocupa o segundo lugar, mas continua na liderança em infraestrutura, educação e sustentabilidade ambiental. O relatório completo, que será divulgado nesta quinta, 27, na capital paulista, ressalta a disparidade entre os Estados das regiões Sul e Sudeste e aqueles do Norte e Nordeste do País.

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“O Estado paulista continua tendo picos de excelência, mas Santa Catarina apresenta uma competitividade mais sistêmica e sem um grande ‘buraco’ competitivo”, afirma o professor Renato Eliseu Costa, doutor em políticas públicas e professor do departamento de economia, administração e sociologia da Esalq/USP.

O Centro-Oeste também se destaca: os quatro Estados da região aparecem entre os dez primeiros. “Isso sugere uma mudança da geografia competitiva brasileira, na qual o eixo tradicional Sul-Sudeste é acompanhado por um bloco Centro-Oeste cada vez mais relevante”, comenta Costa.

O ranking avalia as 27 unidades federativas a partir de 100 indicadores organizados em dez pilares: infraestrutura, sustentabilidade social, segurança pública, educação, solidez fiscal, eficiência da máquina pública, capital humano, sustentabilidade ambiental, potencial de mercado e inovação.

Nova liderança

O crescimento de Santa Catarina no ranking consolida uma trajetória de melhoria nos últimos anos. O Estado está entre os cinco melhores do País nos dez pilares avaliados pelo ranking.

Além da liderança em segurança pública, sustentabilidade social, potencial de mercado e capital humano, a região registrou um avanço significativo em eficiência da máquina pública, saltando de 10º para 3º lugar.

Os indicadores de mercado de trabalho também ajudam a sustentar essa vantagem. No primeiro trimestre de 2026, a Pnad Contínua registrou que Santa Catarina tem a menor taxa de desocupação do País.

Paraná, por sua vez, aparece na terceira colocação e figura entre os dez primeiros colocados em todos os pilares avaliados.

O relatório também chama a atenção para o Rio Grande do Sul, que avançou uma posição e agora aparece em quarto lugar. “Atingir essa marca, mesmo após enfrentar as adversidades causadas pelas enchentes, é um feito memorável”, comenta Tadeu Barros, diretor-presidente do CLP.

Outro Estado que apresentou o melhor desempenho da sua história foi o Piauí, que agora se posiciona como o 19º no levantamento. O movimento é simbolizado pelo avanço de dois pontos em solidez fiscal e a terceira posição geral no pilar de potencial de mercado, que observa indicadores como comprometimento de renda e taxa de inadimplência.

“Estamos acompanhando uma revolução do ponto de vista de educação e de avanços tecnológicos”, diz Barros, da CLP. O caso do Piauí mostra que a melhora da competitividade não está restrita aos Estados mais ricos, embora a distância ainda seja grande.

Disparidade geográfica

Historicamente, as dez primeiras posições do ranking são ocupadas apenas por Estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Essa disparidade, explica Costa, é resultado de um processo histórico.

“A desigualdade competitiva brasileira é menos uma diferença de tamanho de mercado e mais uma desigualdade acumulada de capital humano, formalização, infraestrutura, serviços públicos e densidade institucional. E esses fatores se retroalimentam por décadas”, analisa o professor.

Esses ativos, segundo ele, se reforçam mutuamente: capital humano facilita inovação; inovação eleva produtividade; produtividade sustenta salários, arrecadação e formalização; maior arrecadação amplia a capacidade de financiar políticas públicas e infraestrutura.

Entre os Estados do Norte e do Nordeste também se observam diferenças relevantes. Neste ano, o Ceará avançou para o 11º lugar geral e chega à 5ª posição em Educação; Alagoas aparece em 3º em Inovação; e Maranhão ocupa o 3º lugar em Solidez Fiscal.

“No Norte, a geografia impõe custos adicionais: grandes distâncias, baixa densidade em extensos territórios, logística complexa, menor capilaridade de infraestrutura física e digital”, afirma Costa. “Isso significa que a mesma unidade de investimento público pode enfrentar custos de implantação muito diferentes de territórios mais conectados”.

Rio fora do top 10

Rio de Janeiro avançou duas posições no ranking de competitividade, porém o Estado chama atenção por ser o único do Sudeste fora do top 10.

O desempenho da região é explicado pelo seu histórico de gestão pública conturbado e instável. “Embora o Rio de Janeiro tenha uma das maiores economias do País, essa desorganização administrativa anula o potencial”, observa Barros.

Não à toa, o principal gargalo do Rio é justamente no índice de solidez fiscal, em que ocupa o 23º lugar. O distanciamento frente aos outros três Estados do Sudeste é de aproximadamente 37 pontos neste pilar.

“Quando uma unidade federativa opera por longo período sob forte restrição fiscal, isso compromete capacidade de investimento, manutenção da infraestrutura, previsibilidade administrativa e espaço para políticas anticíclicas”, explica Costa.

Neste mês, o Estado deixou o Regime de Recuperação Fiscal (RRF), em que estava desde 2022, para aderir ao Propag, programa federal que permite renegociar as dívidas estaduais em troca de medidas de ajuste fiscal. A iniciativa prevê a renegociação da dívida do Rio com a União, que já ultrapassa R$ 210 bilhões.

Há também um desafio na alocação de profissionais no mercado de trabalho. Enquanto o Rio aparece em 3º lugar em qualificação dos trabalhadores e em 2º em produtividade do trabalho, tem a pior nota em desocupação de longo prazo e inserção econômica. Na prática, há dificuldade de converter qualificação em inserção produtiva.

“O Rio tem um problema de conversão de ativos em competitividade. Tem capital humano, universidades, serviços sofisticados e uma base econômica relevante, mas enfrenta gargalos fiscais, de infraestrutura, segurança e absorção produtiva que impedem esses ativos de produzir um desempenho sistêmico comparável a São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo”.

Juros altos, desemprego baixo e desempenho global

O ranking de competitividade registrou um aumento da média entre 2025 e 2026, o que sugere um avanço do País diante de um cenário macroeconômico complexo, com o custo de capital elevado e uma transição estimulada pela reforma tributária. Entre os fatores que ajudam a ilustrar a resiliência do País estão a baixa taxa de desemprego e o crescimento do PIB.

Essa leitura é justificada pela melhoria de mais de 30% na mediana de sustentabilidade ambiental e um avanço em potencial de mercado, além de uma melhora de 3% no pilar de educação.

Em contrapartida, o ranking alerta para retrocessos. “Segurança pública registrou uma piora de 9,3% na mediana da nota bruta geral. O cenário de maior complexidade do tecido social tem gerado um aumento na percepção de insegurança”, diz Barros.

Eficiência da máquina pública e solidez fiscal também tiveram notas piores.

Segundo Costa, as condições macroeconômicas afetam os Estados de forma assimétrica. “Estados dependentes de investimento público, transferências ou atividades muito sensíveis ao crédito podem sofrer de maneira mais intensa”, explica o professor. “Choques de câmbio, preços de commodities, comércio internacional e conflitos geopolíticos podem beneficiar determinados Estados e prejudicar outros”, diz.

Ainda assim, ele afirma que competitividade não deve ser enxergada como sinônimo de riqueza. “Um Estado pode ter renda elevada e ainda apresentar gargalos fiscais, sociais ou institucionais. Enquanto Estados de renda mais baixa podem produzir desempenhos muito bons em pilares específicos”, explica.

Via Estadão