capa site julio

A macroeconomia engloba a economia real, que se refere à produção e à circulação de bens e serviços, e a economia escritural ou monetária, que envolve as transações financeiras e de crédito e ativos financeiros que facilitam essas trocas. As inovações tecnológicas aceleraram o fortalecimento da economia escritural, na qual moedas, ações e dividendos passam a circular predominantemente na esfera virtual, capilarizada pelo poderio da internet. Desde que o dólar foi desvinculado do padrão-ouro, nos anos 1970, o valor da riqueza de empresas e governos passou a ser avaliado sob critérios que vão além dos limites da economia real.

Julio Cesar Marcellino Jr
Julio Cesar Marcellino Jr Doutor em Direito, professor e advogado.

No passado, o valor financeiro de uma companhia era determinado pelo seu volume de capital e patrimônio físico, especialmente imóveis. Hoje, o valor de uma empresa está diretamente ligado ao preço de suas ações no mercado, aos aportes em fundos de investimento ou nos ativos puramente digitais, como criptomoedas. Em outras palavras, a relação entre a estrutura física de uma empresa e seu valor de mercado deixou de ser direta.

Esse descolamento entre a economia real e a virtual redimensionou a macroeconomia e deixou o sistema mais suscetível a crises e rupturas econômicas. As dificuldades dos analistas em prever esses momentos de virada são cada vez maiores. Nas últimas décadas, sucessivas turbulências financeiras atingiram o sistema global, impactando governos e corporações com intensidade variável. Esse descolamento provoca um fenômeno chamado popularmente de “bolha”, que ocorre quando há um fluxo maciço de geração de valor simbólico e que não está atrelado à realidade material.

Parte significativa do valor das empresas se baseia em expectativas, tendências e percepções subjetivas, o que torna possível que ativos se valorizem de forma expressiva por certo período, sem sustentação concreta — aumentando o risco de colapsos abruptos. A história econômica recente ilustra esse fenômeno. No início dos anos 2000, a euforia em torno da internet não se confirmou no ritmo esperado, e a Nasdaq perdeu 80% de seu valor, levando a economia norte-americana a uma recuperação que durou quase uma década. Em 2008, o até então sólido mercado imobiliário dos Estados Unidos desmoronou, arrastando consigo o sistema financeiro e, por consequência, o S&P 500 caiu cerca de 50% – o Stand & Poor´s 500 é o principal índice de referência das ações norte-americanas.

A economia norte-americana continua sendo peça central do sistema financeiro global e, por isso, seus movimentos exigem atenção — especialmente diante de uma possível nova bolha associada às Big Techs (grandes empresas de tecnologia). A ascensão da Inteligência Artificial (IA) marca um novo paradigma tecnológico, provocando o surgimento de uma (neo) economia digital que se desenvolverá fora dos padrões tradicionais e que transformará, por completo, o capitalismo contemporâneo.

Um ponto de preocupação é que o S&P 500 vem apresentando crescimento acelerado mesmo diante da queda histórica da taxa de empregos e do desempenho abaixo da média da economia real nos EUA. Durante décadas, as taxas de emprego evoluíram em correlação com o movimento das bolsas, com certa simetria. Porém, justamente após o avanço da IA, esse vínculo se rompeu. Embora não seja possível afirmar causalidade direta, o fenômeno desperta um alerta: as bolsas se valorizam sustentadas por expectativas futuras de produtividade, enquanto a economia real perde fôlego.

Um sinal importante a ser considerado é o clima de insegurança entre investidores. De acordo com o Fear & Greed Index, o mercado opera em um patamar elevado de medo. Há pessimismo entre diversos agentes quanto às perspectivas futuras, indicando que parte dos investidores nota inconsistências no atual ciclo de valorização. Esse sentimento se intensifica num cenário de rápido crescimento da dívida pública norte-americana (hoje em cerca de 124% do PIB dos EUA), desvalorização do dólar, inflação pressionada e forte aumento das reservas em ouro pelos bancos centrais. A dúvida que surge é se estamos diante de uma crise sistêmica iminente ou trata-se de um “novo normal”.

Para avançarmos diante desse dilema, é importante compreendermos o mercado das Big Techs. Nesse segmento, há uma concentração de riquezas sem precedentes, com ativos que já representam 38% do mercado acionário dos EUA. As dez maiores empresas de tecnologia respondem por 22% do mercado global, segundo o Goldman Sachs Global Investment Research. Nesta lista estão Apple, Google, Meta, Amazon, Nvidia e Tesla, o grupo conhecido como “Magnificent Seven”, responsável por 35% do S&P 500.

Com exceção do período posterior ao anúncio do “tarifaço”, em abril deste ano, a bolsa norte-americana segue em trajetória quase contínua de alta, batendo recordes sucessivos. Correções pontuais são esperadas, mas nada impede a ocorrência de uma possível ruptura. Em crises anteriores — 2000, 2007, 2018 e 2021 —, o excesso de otimismo foi seguido por fortes frustrações, padrão semelhante ao observado atualmente.

É importante observar este cenário com atenção, pois a economia se move sob novas coordenadas. Os padrões de análise aos quais estávamos acostumados não mais funcionam como outrora. A IA possui capacidade para representar uma daquelas viradas paradigmáticas históricas, a exemplo do que ocorreu com o surgimento da máquina a vapor, da eletricidade e da internet. Não podemos subestimar seu alcance e impacto na vida e na economia.

Talvez este seja o novo normal a ser compreendido. Nossa capacidade de adaptação sempre foi uma característica forte em tempos de mudança. O momento é de atenção, cautela, coragem e inteligência para nos reposicionarmos no tabuleiro da (neo) economia digital.

* Doutor em Direito, professor e advogado.

Matéria publicada na Revista Sindifisco – Edição 89 – Relatório anual 2025.

Leia a revista completa aqui.

Acesse aqui as edições anteriores.