deputados

Deputados votam em sessão do Plenário da Câmara

Conhecido como ‘imposto do pecado’, novo tributo vai substituir parte do IPI, mas governo ainda não definiu alíquotas

Sem aprovação da cobrança até fim de setembro, itens como cigarros e bebidas alcoólicas podem começar o ano menos tributados

O atraso na implementação do Imposto Seletivo pode deixar um buraco de cerca de R$ 10 bilhões na arrecadação federal nos três primeiros meses de 2027. Por isso, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já prepara um plano B.

Também conhecido como “imposto do pecado”, o Seletivo foi criado na reforma tributária para substituir parte do atual IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). Ele vai incidir sobre produtos considerados prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, como cigarros, bebidas, automóveis e apostas.

O problema é que, para o novo imposto passar a valer a partir de 1º de janeiro, as alíquotas precisam ser aprovadas pelo Congresso e sancionadas por Lula até o fim de setembro deste ano. Isso se deve à antecedência de 90 dias requerida para mudanças tributárias desse tipo.

Até agora, porém, o governo nem sequer encaminhou a proposta de alíquotas. Como mostrou a Folha, há uma pressão política dentro do próprio governo para adiar o envio do projeto, o que alimenta o problema e empurra a solução para depois do pleito.

A emenda da reforma tributária foi aprovada no fim de 2023 e prevê migração gradual para o novo sistema. A fase de testes começou no início deste ano, mas as alíquotas serão cobradas para valer a partir de 2027.

Além do buraco na arrecadação, o atraso na entrada do Seletivo cria também um problema regulatório. Produtos como cigarros e bebidas podem amanhecer sem tributação no início de 2027 —ou seja, ficariam mais baratos do que custam hoje, um incentivo ao consumo que o governo quer evitar.

O Executivo articula um plano B para contornar o problema, que aumenta à medida que se aproxima o prazo de entrega do PLOA (projeto de Lei Orçamentária Anual) de 2027, a ser enviado ao Congresso até 31 de agosto.

Na proposta orçamentária, a equipe econômica não precisará explicitar as alíquotas do Imposto Seletivo nem da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), outro tributo federal criado pela reforma para substituir os atuais PIS e Cofins. Mas o projeto terá que indicar as estimativas de arrecadação com cada tributo, o que exigirá do governo prever o cenário com ou sem as receitas do Seletivo no começo do ano.

Um auxiliar do ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse à Folha, na condição de anonimato, que a equipe econômica não trabalha no momento com a hipótese de perder a arrecadação do Seletivo, mas avaliou que é preciso se preparar para o cenário mais adverso.

A solução não é simples, dado que outros mecanismos de compensação também precisariam respeitar a anterioridade de 90 dias, como uma Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico).

O integrante da área econômica reconheceu as dificuldades para incluir os valores no PLOA, justamente porque as alíquotas para as categorias de produtos ainda não estão fechadas. O interlocutor admitiu que, se o Congresso não aprovar a tempo o projeto das alíquotas do Seletivo, o governo terá que dar um jeito para não ter um buraco no Orçamento.

O plano de contingência está sendo desenhado para garantir o cumprimento da meta fiscal do próximo ano. Em 2027, o alvo da equipe econômica será um superávit de 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto), o equivalente a R$ 73,2 bilhões.

Os detalhes desse plano B ainda são mantidos sob sigilo, mas o representante ouvido pela reportagem afirmou que a saída não será diferente da estratégia de reação à perda de arrecadação adotada ao longo do governo Lula.

O grupo dentro do governo que quer segurar o projeto do Seletivo ainda defende manter o atual desenho do IPI, o que também exigiria mudança legislativa. A possibilidade de edição de uma MP (medida provisória) está na mesa, mas essa opção sozinha não resolve o impasse, pois o texto precisaria ser aprovado até o fim do ano e respeitar a mesma anterioridade para entrar em vigor.

Enquanto a decisão política não é tomada, as equipes da Receita Federal e do Ministério da Fazenda trabalham com técnicos do TCU (Tribunal de Contas da União) na elaboração da metodologia de cálculo das alíquotas da CBS. Consultores do Senado também integram a força-tarefa.

A emenda da reforma tributária deu à corte de contas a função constitucional de validar as alíquotas de referência da CBS (que irá substituir os tributos federais PIS e Cofins). Como a reforma tributária prevê a manutenção da carga tributária global, o que deixar de ser arrecadado com o Seletivo terá de ser compensado por uma alíquota maior da CBS. Ou seja, sem o imposto do pecado, haverá desoneração de bebidas e cigarros à custa de maior carga sobre bens e serviços em geral, como roupas e energia elétrica.

INDEFINIÇÃO AFETA DECISÕES DE INVESTIMENTO DAS EMPRESAS

A indefinição em torno das alíquotas do Seletivo tem causado apreensão nos setores alcançados pelo imposto. Os fabricantes de automóveis têm conversado com a área técnica, mas o diálogo é considerado ainda incipiente porque o modelo de distribuição das alíquotas ainda é mantido sob sigilo pelo Ministério da Fazenda.

Em outra frente, a área de saúde do governo faz pressão para que a nova tributação seja mais alta do que é hoje com o IPI, para desestimular o consumo de produtos nocivos, como cigarros e bebidas. Nesse caso, a alíquota da CBS poderia ser menor. O tema está sendo discutido internamente, mas a decisão será política, a ser tomada pelo presidente Lula.

O Ministério da Fazenda já espera o aumento da pressão nas próximas semanas, pois as empresas têm que preparar suas estratégias de investimento para 2027 e os anos seguintes.

Auxiliares do ministro reconhecem que o governo está em débito em termos de informação aos setores, e o esforço da Receita Federal neste momento é no sentido de dar em breve uma sinalização do que será feito.

A ideia é indicar ao menos quais serão os critérios e parâmetros propostos, já que a Constituição permite fixar alíquotas diferenciadas em função do tipo, do valor, da utilização e do impacto ambiental. Hoje, no caso dos veículos, o IPI considera o tipo, a potência e a fonte de energia (elétrico, híbrido, etanol, gasolina ou diesel).

O interlocutor ouvido pela Folha afirmou que não haverá um “prato ponto”, até porque as alíquotas serão definidas pelo Congresso. A ideia é evitar que os setores sejam surpreendidos por uma cobrança que, a depender da magnitude, pode mudar bastante a carga e afetar decisões de produção, importação de insumos e investimentos.

Segundo o integrante da Fazenda, o foco neste momento é garantir precisão no cálculo das receitas projetadas para afastar risco às contas públicas no primeiro ano do próximo governo. A área técnica está “quebrando a cabeça” para distribuir as alíquotas com base numa conta de chegada para não errar na arrecadação.

O governo considera bastante provável que o Congresso faça mudanças na proposta enviada. Para subsidiar qualquer decisão, o Executivo e o TCU vão disponibilizar uma espécie de calculadora que apontará, de forma imediata, o quanto uma redução de alíquota de determinado setor no Seletivo causa de aumento na CBS. A ideia é explicitar a relação entre causa e efeito dessas decisões.

A aprovação recente pela Câmara da PEC (proposta de emenda à Constituição) que amplia a imunidade tributária de entidades religiosas acendeu a luz vermelha da pressão que está por vir quando o projeto do Seletivo chegar ao Congresso.

Fonte: Folha de SP